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A era das “bandeiras” de relacionamento

15 de jul.
4 min de leitura

Vivemos na era das bandeiras vermelhas. Nas redes sociais, especialmente no TikTok, tornou-se comum avaliar relacionamentos por meio de cores: Bandeira vermelha (sinais de perigo), Bandeira verde (sinais saudáveis) e bandeira amarela (comportamentos que merecem atenção). Recentemente, porém, surgiu uma nova categoria que despertou curiosidade: as bandeira bege

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Mas afinal, o que são essas “bandeiras bege”?

Ao contrário das bandeiras vermelhas, que indicam possíveis comportamentos abusivos, ou das verdes, que apontam maturidade emocional, as bandeiras bege representam pequenas peculiaridades da personalidade. São hábitos estranhos, manias ou excentricidades que não são necessariamente boas ou ruins. Elas apenas tornam alguém… singular.

Talvez seu parceiro converse com os cachorros que encontra na rua. Talvez organize os livros por cor e não por assunto. Talvez saiba tudo sobre locomotivas do século XIX ou sempre pergunte o signo das pessoas antes de lembrar seus nomes.

São detalhes aparentemente sem importância. Mas será que a Psicanálise diria que eles realmente não significam nada?


A singularidade nunca é acidental

Para a Psicanálise, praticamente nenhum comportamento humano é completamente aleatório.

Melanie Klein afirmava que nossa vida psíquica é construída desde os primeiros meses de existência. Antes mesmo da linguagem, o bebê organiza seu mundo interno através das relações com seus objetos primários — especialmente a mãe ou quem exerce essa função. Pequenos hábitos repetitivos, preferências incomuns ou formas particulares de organizar o cotidiano podem ser compreendidos como maneiras encontradas pelo psiquismo para oferecer estabilidade ao mundo interno. Nem toda repetição é sintoma.

Muitas vezes ela é apenas uma forma silenciosa de manter uma sensação de continuidade emocional.


Winnicott e o direito de ser estranho

Donald Winnicott talvez fosse um dos autores que mais facilmente compreenderia o fenômeno das bandeiras bege. Para ele, o amadurecimento saudável não consiste em eliminar nossas peculiaridades, mas em desenvolver um verdadeiro self suficientemente livre para existir. Quando alguém canta baixinho enquanto cozinha, coleciona objetos curiosos ou dorme sempre do mesmo lado da cama, talvez esteja simplesmente expressando aspectos espontâneos desse verdadeiro self.

Segundo Winnicott, uma pessoa emocionalmente saudável consegue brincar.

E brincar não significa apenas jogos infantis. Brincar é experimentar o mundo com criatividade. É justamente nesse espaço criativo que muitas das chamadas bandeiras bege aparecem.


O espaço potencial das pequenas manias

Winnicott descreveu algo chamado espaço potencial, uma área intermediária entre a realidade externa e o mundo interno. É nesse espaço que surgem a arte, a cultura, a criatividade e também inúmeros pequenos rituais cotidianos.

Algumas pessoas precisam colocar o travesseiro exatamente da mesma forma antes de dormir. Outras conversam com plantas. Algumas não conseguem sair de casa sem verificar três vezes se fecharam a porta. Nem todas essas condutas representam sofrimento psicológico. Algumas fazem parte do modo singular como cada indivíduo organiza sua experiência emocional.


Quando a estranheza aproxima

Curiosamente, muitos casais descobrem que aquilo que inicialmente parecia estranho torna-se motivo de afeto. É comum ouvirmos frases como:

“No começo eu achava isso esquisito… hoje sinto falta quando ele não faz.”

A Psicanálise compreende esse movimento como parte da construção do vínculo.

Melanie Klein descreveu que o amor maduro acontece quando conseguimos integrar qualidades e imperfeições na mesma pessoa.

Na chamada posição depressiva, deixamos de enxergar o outro dividido entre “bom” e “mau”. Passamos a reconhecê-lo como alguém inteiro, com virtudes, falhas, limitações e singularidades. Nesse sentido, muitas bandeiras bege deixam de parecer defeitos para se tornarem marcas da identidade do parceiro.


Quando a bandeira bege merece atenção

Naturalmente, nem toda excentricidade deve ser romantizada.

Existe uma diferença importante entre uma característica curiosa e um comportamento que produz sofrimento. Se uma mania interfere intensamente na vida cotidiana, gera ansiedade extrema, isolamento ou prejuízo nos relacionamentos, talvez ela deixe de ser apenas uma peculiaridade. É aqui que entra a importância do olhar clínico.

Aquilo que parece apenas um hábito curioso pode, em alguns casos, funcionar como defesa contra angústias profundas. Mas essa conclusão jamais pode ser feita apenas observando um comportamento isolado. A Psicanálise sempre investiga a história singular daquele sujeito.


Bandeiras bege não são diagnósticos

Vivemos uma época em que existe uma forte tendência a transformar qualquer comportamento diferente em diagnóstico como se realmente fosse necessário patologizar tudo. A Psicanálise caminha na direção oposta.

Ela não pergunta apenas:

“O que essa pessoa faz?”

Ela pergunta:

“O que esse comportamento significa para essa pessoa?”

Essa mudança de perspectiva faz toda a diferença. Dois indivíduos podem apresentar exatamente o mesmo hábito por razões completamente diferentes. Para um, pode ser apenas diversão. Para outro, uma defesa contra intensa ansiedade. O comportamento é semelhante. O sentido inconsciente não.


Amar também é aprender a ler as pequenas excentricidades

Talvez as bandeiras bege revelem algo que esquecemos em tempos de redes sociais.

Nem tudo precisa ser classificado entre saudável e tóxico. Existem pessoas apenas… humanas.Donald Winnicott dizia que a saúde emocional inclui a capacidade de viver criativamente.E viver criativamente significa permitir-se existir sem precisar esconder todas as próprias esquisitices.Talvez seja justamente isso que torne alguém inesquecível.

No fim das contas, aquilo que hoje chamamos de bandeiras bege pode ser apenas outra forma de dizer que ninguém ama um ser humano perfeito.

Amamos alguém cuja singularidade, pouco a pouco, deixa de parecer estranha e passa a soar familiar. Porque, muitas vezes, o amor não elimina as excentricidades e sendo assim podemos nos contentar e sustentar que ele simplesmente aprende a habitá-las.


Referências

  • Klein, M. Amor, Culpa e Reparação.

  • Klein, M. Inveja e Gratidão.

  • Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade.

  • Winnicott, D. W. O Ambiente e os Processos de Maturação.

  • Winnicott, D. W. Tudo Começa em Casa.


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