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Silêncio, Narcisismo e Codependência


No episódio do Psicanálise & Eu, Getúlio Tamid e Josimar entram em um território delicado, mas extremamente comum na clínica e na vida cotidiana: o “tratamento do silêncio”, suas distorções conceituais e sua relação direta com narcisismo, codependência e manipulação emocional.

O que parece simples — alguém que se cala — pode esconder dinâmicas psíquicas profundas. E é justamente aí que mora o perigo.


Silêncio não é tudo igual

Um dos primeiros pontos esclarecidos no diálogo é algo fundamental:nem todo silêncio é tratamento de silêncio.

Quando uma pessoa decide se afastar, cortar contato ou silenciar para se proteger emocionalmente, isso não é punição, nem manipulação. É limite. É autocuidado. É sobrevivência psíquica.

Já o silent treatment clássico, associado a perfis narcísicos, tem outra função: controle. Ele surge para gerar culpa, ansiedade, confusão e submissão no outro. Não é ausência inocente — é estratégia.

Aqui entra uma distinção-chave feita pelos autores - fatos não são narrativas.O narcisista trabalha com narrativas. O sujeito saudável precisa se apoiar nos fatos.


Intuição sem dados vira armadilha

Em determinado momento, a conversa faz uma analogia brilhante com a aviação militar:pilotos de caça aprendem que, em situações críticas, não podem confiar no próprio corpo, mas sim nos instrumentos do painel.

Na vida emocional, acontece algo parecido.Quando faltam dados objetivos — coerência entre fala e atitude, previsibilidade, responsabilidade afetiva — o sujeito codependente tende a preencher os vazios com fantasia e esperança.

A intuição é importante, sim. Mas intuição sem dados vira autoengano.Sentir não basta. É preciso observar.


Codependência tem cura?

A pergunta aparece com frequência — e a resposta é honesta, sem promessas mágicas.

A codependência não é algo que “some” como uma gripe. Ela se parece mais com condições crônicas, como o diabetes:não há uma cura definitiva, mas há controle, consciência e vida plena possível.

Quando o sujeito entende seus padrões, seus gatilhos e suas feridas, ele deixa de ser refém deles.O problema não é sentir demais — é não saber o que fazer com o que se sente.


“Eu não sei do que eu gosto”

Talvez um dos pontos mais sensíveis abordados seja este:muitos codependentes simplesmente não sabem quem são, nem do que gostam.

Isso não nasce do nada. Geralmente vem de uma vida inteira moldada pelas expectativas do outro: pais, parceiros, relações assimétricas.

Não saber o que gosta não significa vazio interno, mas falta de experimentação.A recomendação é clara: experimentar, errar, testar, se escutar.

Livros como A Única Coisa e Ikigai são citados como caminhos possíveis para esse reencontro consigo mesmo — não como fórmulas prontas, mas como provocações.


Narcisistas não são bagunçados (necessariamente)

Outro mito desmontado:narcisistas não precisam ser caóticos, explosivos ou desorganizados.

Muito pelo contrário. Muitos mantêm aparência impecável, controle absoluto e imagem social perfeita.O que os denuncia não é o superficial, mas o modo como manipulam, silenciam, distorcem e invalidam o outro.

Identificar o narcisismo exige menos julgamento estético e mais leitura de padrão relacional.


“Isso é normal?” — geralmente, não

Cultura muda, costumes variam, mas há algo universal:quando alguém próximo evita responder perguntas simples sobre sentimentos e usa o silêncio como resposta recorrente, isso não é normal.

Esse tipo de silêncio não aproxima, não organiza, não amadurece a relação.Ele confunde, enfraquece e adoece.

Na maioria das vezes, é sinal de manipulação emocional.


A rendição total do codependente

Talvez o trecho mais duro — e mais real — seja a explicação sobre a chamada “rendição total”.

O codependente ignora sinais claros, atravessa limites e se entrega por inteiro porque confunde intensidade emocional com vínculo verdadeiro.

É como beber um vinho barato acreditando ser um grande rótulo, apenas porque alguém contou uma boa história.

O antídoto?Autorrespeito. Limites. Tempo. Observação.

Relacionamento não se prova na intensidade do começo, mas na constância do cuidado.


Conhecimento liberta

Ao longo do episódio, Getúlio e Josimar reforçam algo essencial:informação de qualidade salva tempo, saúde mental e, muitas vezes, anos de sofrimento.

Porque quando o sujeito entende o jogo, ele deixa de jogar contra si mesmo.

📌 Se você já viveu o silêncio que machuca, saiba: não é exagero, não é fraqueza, não é “coisa da sua cabeça”.É sinal. E sinais pedem leitura — não negação.

Silenciar pode ser violência.Mas romper o silêncio interno é sempre um ato de coragem.


 
 
 

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