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Narcisismo e as redes sociais


As demonstrações de felicidade conjugal frequentemente observadas em perfis de indivíduos com funcionamento narcísico nas redes sociais não correspondem, na maioria das vezes, à experiência emocional vivida na intimidade. Mais do que relatos espontâneos de bem-estar, essas imagens operam como dispositivos defensivos voltados à sustentação do ego, à contenção de angústias inconscientes e à manutenção de uma narrativa idealizada do self. À luz da psicanálise freudiana e da teoria das relações de objeto de Melanie Klein, este texto investiga por que a felicidade mais visível costuma ser também a mais instável.


1. Um Espaço de encenação psíquica


Sob uma leitura psicanalítica, as redes sociais não funcionam como espelhos transparentes da vida emocional, mas como cenários de representação do eu. No caso do narcisismo, esse espaço torna-se fundamental para a organização subjetiva, pois permite a construção de uma imagem ideal que depende do olhar do outro para se sustentar.


Freud, ao discutir o narcisismo em 1914, já indicava que a autoestima narcísica necessita de investimentos externos constantes para não colapsar. Quando o amor genuíno é substituído pela necessidade de admiração, o vínculo deixa de ser vivido como encontro e passa a ser utilizado como prova.


Nesse contexto, as postagens amorosas não dizem “estamos bem”, mas comunicam algo mais primitivo:

  • “Sou digno de desejo”

  • “Minha vida confirma meu valor”

  • “Minha imagem permanece intacta”

O relacionamento passa a existir menos para o casal e mais para quem observa.


2. Intensificação da imagem

Um fenômeno recorrente na clínica é o aumento da exposição afetiva justamente nos momentos de maior tensão relacional. Conflitos, afastamento emocional e experiências de desvalorização frequentemente antecedem publicações excessivamente positivas.

Do ponto de vista metapsicológico, trata-se de um reforço defensivo. Diante da ameaça ao ego, o sujeito intensifica a produção de sinais externos de sucesso e felicidade. A alegria exibida funciona como negação simbólica da falha relacional.

Não é raro ouvir relatos como:

“Foi quando tudo começou a desmoronar que passamos a parecer perfeitos.”

Aqui, a felicidade não é vivida — é encenada para conter a angústia.


3. Contribuições de Melanie Klein

A teoria kleiniana ajuda a compreender por que, nessas dinâmicas, o parceiro raramente é reconhecido como sujeito pleno. Em vez disso, ele ocupa o lugar de um objeto funcional, cuja principal tarefa é sustentar a imagem idealizada do eu.

Em Inveja e Gratidão, Melanie Klein descreve como o objeto idealizado serve de proteção contra ansiedades primitivas. Nas redes sociais, essa idealização se traduz em imagens cuidadosamente selecionadas, onde o parceiro aparece menos como pessoa e mais como evidência.

Evidência de quê?

  • De valor pessoal

  • De superioridade simbólica

  • De triunfo sobre perdas passadas

Quando o parceiro falha em manter essa função — ao expressar sofrimento, limites ou frustração — a idealização se rompe. E, com ela, o vínculo.

A lógica não é de elaboração, mas de substituição.


4. A supremacia da validação sobre o vínculo

Relacionamentos emocionalmente seguros produzem continuidade interna. Relações narcísicas produzem dependência de confirmação externa.

A necessidade constante de curtidas, comentários e reconhecimento público não indica segurança, mas fragilidade. Cada interação digital atua como um pequeno reforço narcísico, temporário e insuficiente.

Freud já diferenciava o amor que reconhece o outro como alteridade daquele em que o outro é amado enquanto extensão do próprio eu. No segundo caso, a relação não tolera silêncio, anonimato ou invisibilidade.

Por isso, a intimidade privada pode ser vivida como ameaça, enquanto a exposição pública oferece alívio.


5. O que o carrossel não revela

Por trás da narrativa do “casal ideal”, a prática clínica revela padrões recorrentes:

  • Proximidade pública coexistindo com distanciamento afetivo

  • Gestos de controle mascarados como cuidado

  • Competição velada dentro da relação

  • Um parceiro que abdica de si para preservar a harmonia

Muitos descrevem uma experiência paradoxal:

“Quanto mais felizes parecíamos para os outros, mais isolado eu me sentia.”

Essa dissociação aponta para uma dificuldade de integração emocional, característica de funcionamentos psíquicos marcados pela cisão e pela idealização.


A discrição do que é real

A psicanálise não afirma que sujeitos narcísicos sejam incapazes de sentir prazer ou satisfação nos vínculos. Contudo, tais experiências costumam ser instáveis, condicionadas ao retorno externo e facilmente ameaçadas pela frustração.

O que se vê nas redes sociais, na maior parte das vezes, não é o vínculo — é o mecanismo que tenta compensar sua fragilidade.

Em termos simples:

  • Relações consistentes não precisam ser anunciadas

  • Intimidade verdadeira suporta o silêncio

  • Amor vivido não depende de plateia

Ou, dito sem rodeios clínicos:

O que é real não grita.O que é frágil precisa ser exibido.E as redes sociais nunca foram lugar de análise profunda muito menos um lugar terapeutico.


 
 
 

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