top of page

Fofopatas Fofocam?


Na clínica e na observação dos fenômenos sociais, é recorrente a associação entre estruturas narcísicas e a prática reiterada da fofoca. Longe de se tratar de um comportamento banal ou meramente social, a fofoca pode ser compreendida como um dispositivo psíquico de manutenção da centralidade do Eu, operando tanto no nível intrapsíquico quanto no intersubjetivo.


O sujeito com organização narcísica tende a sustentar narrativas contínuas em torno de si mesmo, ainda que essas narrativas sejam frágeis, pueris ou descartáveis em termos de conteúdo. O que está em jogo não é a consistência simbólica da narrativa, mas sua função libidinal: manter o Eu investido, visível e afetivamente carregado.

Nesse sentido, o narcisista pode alternar dois eixos narrativos principais:


  1. a exaltação de si mesmo (idealização do Eu), ou

  2. a desqualificação do outro (rebaixamento do semelhante).

Ambos cumprem a mesma função estrutural: produzir uma cortina de fumaça que sustente a superioridade imaginária do sujeito, seja por comparação direta, seja por deslocamento da atenção.


Freud, ao formular o conceito de narcisismo (1914), já indicava que o investimento libidinal no próprio Eu exige constante sustentação, sobretudo quando o Ideal do Eu é instável ou inflado. A fofoca, nesse contexto, pode ser lida como uma tentativa defensiva de restaurar o equilíbrio narcísico ameaçado.


Lacan aprofunda essa leitura ao situar o narcisismo no registro do Imaginário, onde o Eu se constrói pela imagem e pelo olhar do Outro. A necessidade de ser falado, comentado ou emocionalmente mobilizador indica a dependência radical do sujeito narcísico em relação ao campo do Outro — não como lugar de alteridade simbólica, mas como espelho.


Segundo Sam Vaknin, estudioso contemporâneo do narcisismo patológico e assumidamente narcisista patológico, a fofoca cumpre funções específicas na economia psíquica do narcisista:


  1. Instrumento de obtenção de atenção, seja ela positiva ou negativa. O valor não está no conteúdo da atenção, mas no fato de que o “fornecimento narcísico” esteja ativo.

  2. Mecanismo de regulação emocional: diante de sentimentos de insignificância, abandono ou vulnerabilidade, a fofoca permite ao sujeito retornar ao centro da cena ou inverter posições — de frágil para poderoso.

  3. Manutenção da fachada do falso self, conceito próximo ao que Winnicott descreve, mas que aqui dialoga com a lógica lacaniana do Eu como construção imaginária. Ao eleger terceiros como alvos, o narcisista protege seu núcleo frágil (verdadeiro self) da exposição direta.

  4. Deslocamento e projeção de falhas e fragilidades próprias sobre o outro, criando narrativas de vítima e culpado que preservam a imagem idealizada do Eu.

  5. Mobilização de fornecimento secundário em contextos grupais ou digitais: espectadores, cúmplices, seguidores e comentaristas passam a funcionar como extensões do espelho narcísico, reforçando a sensação de existência e importância.


Do ponto de vista psicanalítico, quando um conteúdo irrelevante do ponto de vista simbólico ganha excessiva visibilidade, carga emocional e circulação, é legítimo suspeitar da presença de uma dinâmica narcísica operando nos bastidores. Muitas vezes, o narcisista ainda não é claramente identificável, mas seus efeitos já se fazem sentir no campo discursivo.

Em suma: onde há muito barulho e pouco significado, pode haver um Eu desesperadamente tentando existir no olhar do Outro.


Se você leu até aqui, parabéns pois você está a um passo à frente de quem realmente deseja se curar da codependência emocional. Para isso, preparamos um guia que pode te ajudar a trilhar esse caminho. Confira tocando no botão abaixo.


 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Formulário de inscrição

Obrigado(a)

©2020 por Psicanálise & Eu. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page